Bocejo.

24Dez08

~ galochas amarelas dentro da noite escura dentro da noite escura dentro da noite mais de mil gatos nos telhados dentro da noite escura e insetos a cochicharem cochichos dentro da noite escura e lembranças tristes de verões outonos invernos primaveras estranhas equinócios e solstícios e absurdos cálculos muitos cigarros e o vício rouco de falar bem pouco sobre as coisas todas elas mal faladas mal entendidas suspeitas dias mais curtos noites mais longas terríveis caretas em frente ao espelho do quarto de dormir e na antiga cômoda herança de família comprimidos verdes vermelhos azuis amarelos galochas amarelas dentro da noite escura onde as luzes não param de tremer onde os bêbados silenciosos trançam pernas e os casais nas janelas das casas juram amores loucos com seus corpos suas línguas e seus cães a espreitarem a noite e a dividirem a falsa calma das ruas e quando um late todos latem e quando um uiva todos uivam e seguem a espreitar o escuro das horas até que alguém tropeça e resolve se lembrar de como era a vida antes que a vida se tornasse aquilo de mais temível aquilo de mais repugnante que hoje a vida é e então pára à esquina de uma viela urina chora e segue dentro da noite escura como se nada houvesse acontecido como se nada jamais houvesse acontecido e chora e segue a trilhar seu caminho dentro da noite escura como quem reza e do outro lado da cidade pupilas dilatadas a menina dança e o velho senhor dorme seu último sono como se nada jamais houvesse acontecido e segue a babar aos lençóis amarelos galochas amarelas dentro da noite escura dentro da noite escura dentro da noite mais de mil mentiras e uma memória perdida à luz de uma química transloucada o ar vibra e as invisíveis nuvens se sacodem de um susto mas a noite não tem pressa a noite sem lua é este sem fim de sacolejos surdos onde a cabeça queima e jamais tombará ~



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