Watt coroado.
“Continuando a inspecção, como alguém desprovido de senso, observei, tão distintamente que não havia margem para dúvidas, no jardim adjacente, quem senão Watt, a avançar de costas na minha direcção. A sua progressão era lenta e erradia, devido certamente a ele não ter olhos nas costas, e dolorosa também, acho, pois muitas vezes ia de encontro aos troncos das árvores, ou enredavam-se-lhe os pés no emaranhado de plantas rasteiras, e caía, dando com todas as costas no chão, ou num maciço de espinheiros, ou de roseiras bravas, ou de ortigas, ou de cardos. Mas, sempre sem um murmúrio, continuava, até que ficou encostado à cerca, com os braços esticados, agarrado aos arames. Então, deu meia volta, na intenção muito provável de regressar da forma como viera, e vi a face dele, e o resto da sua parte dianteira. Tinha a cara a sangrar, as mãos também, e espinhos espetados no couro cabeludo. (Nesse momento, a sua parecença com o Cristo imaginado por Bosch, na altura em Trafalgar Square, era tão flagrante que reparei nela.) E, no mesmo instante, abruptamente, tive a sensação de que estava diante de um grande espelho, no qual se reflectia o meu jardim, e a minha cerca, e eu, e até os próprios pássaros agitando-se ao vento, de forma que me pus a olhar para as mãos, e a tocar a face, e o crânio brilhante, com uma ansiedade tão real quanto infundada. (Pois se, nessa época, havia alguém de quem se podia dizer com verdade que não se assemelhava ao Cristo suposto por Bosch, na altura em Trafalgar Square, gabo-me de ser essa pessoa.)“
Um trecho de Watt (1953), por Samuel Beckett.
Editora Assírio & Alvim, tradução de Manuel Resende.
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