Quadrante.

22Ago08

______Encontrei-me com Paulo na esquina da Rua do Cemitério, trazia comigo uma pequena valise cheia de papéis. O que há com você?, perguntou-me assim que afrouxei o passo. Que tipo de pergunta é essa? Eu não sei, parece que não dorme há dias. Sim, é verdade, de fato não durmo há um bom tempo, venha, preciso te mostrar uma coisa, é importante. Chegando em meu apartamento pedi para que se sentasse ao sofá, logo eu traria algo para bebermos, Sente-se aí, logo trago algo para bebermos, foi o que eu disse, Espere um pouco, está bem? Fui ao banheiro lavar o rosto e as mãos, suava bastante, a camisa ensopada por debaixo do casaco. Voltei à sala e com os olhos bem abertos disparei a falar. Paulo ouviu tudo, não se movia, vez ou outra podia perceber que lágrimas escorriam-lhe pelas bochechas absurdas. Abri a valise, examinei algumas folhas rabiscadas com signos estranhos, murmurei algo. Paulo atônito a fitar-me em suspenso, os lábios pouco separados em um desenho idiota. Você entende? Você entende? De um só sobressalto, começo a gritar como um louco, Paulo! Oh, Paulo! Paulo, você entende? Não? Você não entende? Pelo diabo, Paulo, me diga, vamos, você compreende? Oh! Sim! Sim! Terrível! Terrível! Ficamos por ali, em meio à mobília, no escuro. Certo dia Paulo cutucou-me o ombro, disse-me algo ao pé do ouvido. Virando à esquerda encontrará um poste. Virando à esquerda encontrará um poste, mais nada. Viro à esquerda, encontro-me com Paulo na esquina da Rua do Cemitério, trago comigo um pequeno vidrinho entupido de veneno. Paulo chora, beijo-lhe a testa. Viro à esquerda, viro à esquerda, sigo a virar à esquerda, à esquerda, virando às esquerdas, às esquerdas, viro, viro, meus pés, minhas mãos, minha boca, minha língua, sigo a virar às esquerdas, virando, virando, encontro-me com Paulo na esquina da Rua do Cemitério. Contorno a cama obsessivamente.



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