Palhaço.
______Não me importa a filosofia, o pulso. Se travo diálogos com o escuro, se sonho desertos, e então? Se penso na morte ou na moça, se não sei dançar, se sou feio, se falo de menos – o que há para ser dito? Se não me interessa a política, as canções contentes ou os piqueniques endomingados, não, nada disso me importa. Se ao pensar constato que talvez fosse melhor aprender piano, praticar um esporte, traçar planos, gostar de matemática, me valer cegamente do acaso, não, absolutamente, de agora em diante só restará este meu pequeno céu patafísico. Basta. Pensar? Não, mais nenhum pensamento. Por quieto, inocente que seja, mais nenhum pensamento. Não, pensar jamais. Fumarei cigarros à janela, comprarei tomates. Mas quem? Quem à janela? Quem aos tomates? Ao diabo, como mentir? A quem a poesia? Perdido, penso. Sigo a pensar. Envergonhado, às escondidas; o palhaço. Trago comigo o alívio do trágico, a agonia do cômico e o silêncio do impossível. E o estômago indisposto por natureza.
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