Rabisco um verso ao canto da página e sigo a repeti-lo ladeira abaixo. Crio o poema perfeito: reto, sombrio, completamente meu. Sigo a riscar o mesmo poema às outras folhas, espanto-me com meu atrevimento, devo ser poeta. Adiante, marcando páginas e páginas, agarro o lápis com força, o espírito alucinado. Lá vou eu a preencher as paredes, os armários, minhas roupas, louças e o chão da sala. A chuva fustiga as janelas com a violência das chuvas que fustigam as janelas com a violência das chuvas tão quase chuvas a mim. Coisas sempre tão quase coisas a mim, todas elas. Metralhadora enlouquecida, esgoto o grafite, arranho as portas, os postes, as casas, os restaurantes, bordéis, barracas, homens de gravata, mulheres de vestido, crianças coloridas, torres, edifícios, montanhas, florestas inteiras, a noite escura; e o medo da noite escura. E a chuva sobre os campados, o fogo dos amores de domingo, os bancos de praça, a fúria dos oceanos revoltosos e as cores da manhã que explode. E tombo, exausto em mim. Acordo ao som de um pássaro cretino. O rosto pregado aos papéis, os papéis vazios de palavras; o mundo em branco, ordinário, morto-vivo pulsante tal como o habitual, sem manchas. Me levanto em desalinho, o céu através da vidraça é azul, terrivelmente azul. Bocejo. O pássaro não pára de piar, vou matá-lo.



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