Fórceps.

02Out09

Lunetas, maletas, o café da tarde, eu sei o que ninguém sabe, eu sei o que ninguém sabe. O casal à viela estuporada à noite velada à luz alucinada dos olhos dos homens, lunetas, maletas, lunetas e solitários, lunetas e solitários, eu digo o poema, eu rio o poema, atiro o poema, cuspo o poema contra o espelho, contra o espelho sou o poema. Eu sou o poema. Atravessantes vagabundos nublados, esqua-qua-drinhados: lunetas, maletas e o café da tarde. Instante. O céu, um homem.


Pausa.

29Ago09


Início.

09Ago09

C. 001 – PRAIA – EXT. DIA

A imagem do mar revoltoso ao fim de uma tarde nublada; o barulho das ondas em um crescendo cada vez mais alucinante.

/CORTE

Cartão preto.

______________JOÃO (V.O.)
____________Você pode me ajudar?


Instante agudo em suspenso, apago as luzes. O silêncio voraz de uma calma que não é minha, o sopro esparso ao escuro das horas. Um estranho universo às avessas a configurar-se como de um susto em meu peito. Eu sou este curso fragmentado dos meses que ardem, sou a muda mobília que ri, a bagunça dos dias ainda não atravessados. E então uma flor à janela, um aceno. Não exatamente. E então uma flor à janela, uma flor à janela. Valsa vítrea transloucada, eu sou o calor do abismo vislumbrado. A flor transposta e então a queda. Nenhuma palavra, o céu no estômago. Uma calma em minha calma, um sopro em meu sopro, o silêncio voraz dos sorrisos em festa. E luzes. Eu sou este fiasco das anotações impossíveis, sou a violência do poema não escrito, o drama. Sou a desconstrução do reflexo de um idiota. Prossigo.


Shit.

04Ago09

i’m painting a portrait of a man that doesn’t exist
all day long
it’s night already
i’m painting a portrait of a man that doesn’t exist

i’m painting his eyes now
and his eyes are not funny
at all
and i’m painting his smile

all night long and on
i’m painting a portrait of a man that doesn’t exist
keep going on
going on

i’m painting a portrait of a man that doesn’t exist
that doesn’t exist
shit
i’m painting a portrait of a man that doesn’t exist


Pausa.

28Jun09


tudo explodiu. E ninguém chorou.


/// Desvio o olhar à janela enquanto você mastiga mais um bocejo e as luzes de uma madrugada impossível atravessam nossos copos. Então o velho sonho se agita em descompasso e penso em mil maneiras de sair correndo sem ser percebido, mas continuo a revolver discursos, cálculos, fiascos, poemas escondidos sobre o patético, sobre os falsos dramas, sobre minhas velhas sombras, sobre como coça o meio da testa, sobre a forma com que une as sobrancelhas em um desenho infantil, um desenho infernal. E como se encolhe em sorrisos que rasgam o espírito. Jogos de promessas e a disposição dos corpos: um que flutua, outro que se arrasta; um que ri e o outro a desviar o olhar à janela enquanto você aperta mais um bocejinho, espremendo o queixo em uma trêmula tensão que acaba por se tornar o motivo de mais um verso manco do espetáculo mais triste do mundo. Mas rimos. Rimos e lá fora o céu em silêncio. E aqui dentro um crescendo de profusões catastróficas e o desencontro em desinteressantes harmônicos. Você com sua beleza a bocejar e eu a desviar olhares, a metralhar bobagens sobre o cenário. Você mais menina ao passar dos instantes, eu em profunda mutação nervosa, em uma espécie complexa de transfiguração que explode em uma imagem de monstro cada vez mais monstro, afundando-se no sofá, cada vez mais monstro, cada vez mais monstro. E todos os monstros teriam medo de mim, aquele que deflagrou o abismo, o mais feio e repulsivo dos monstros, o monstrinho de brinquedo esquecido ao canto do seu quarto. Não sou seu livro, não sou seu livro, mas te escrevo um poema e adeus. E enquanto percorro o caminho em regresso, penso em quebrar os vidros das janelas e enforcar o motorista. E enquanto percorro o caminho em regresso, fumo. E hoje o céu está claro, e hoje o céu está claro. Então fumo e brinco com uma maçã. Eu escrevo um texto, não é um texto, sobre a maçã, não é a maçã. Sigo adiante. Um rapaz se senta ao meu lado e mira o céu, uma moça cruza o espaço e mira o chão. Sei que foram feitos um para o outro. Mais um cigarro, minhas mãos não param de tremer. ///


*

20Abr09

Por outro lado, levando-se em consideração,


Errata.

12Jan09

- – -


Bocejo.

24Dez08

~ galochas amarelas dentro da noite escura dentro da noite escura dentro da noite mais de mil gatos nos telhados dentro da noite escura e insetos a cochicharem cochichos dentro da noite escura e lembranças tristes de verões outonos invernos primaveras estranhas equinócios e solstícios e absurdos cálculos muitos cigarros e o vício rouco de falar bem pouco sobre as coisas todas elas mal faladas mal entendidas suspeitas dias mais curtos noites mais longas terríveis caretas em frente ao espelho do quarto de dormir e na antiga cômoda herança de família comprimidos verdes vermelhos azuis amarelos galochas amarelas dentro da noite escura onde as luzes não param de tremer onde os bêbados silenciosos trançam pernas e os casais nas janelas das casas juram amores loucos com seus corpos suas línguas e seus cães a espreitarem a noite e a dividirem a falsa calma das ruas e quando um late todos latem e quando um uiva todos uivam e seguem a espreitar o escuro das horas até que alguém tropeça e resolve se lembrar de como era a vida antes que a vida se tornasse aquilo de mais temível aquilo de mais repugnante que hoje a vida é e então pára à esquina de uma viela urina chora e segue dentro da noite escura como se nada houvesse acontecido como se nada jamais houvesse acontecido e chora e segue a trilhar seu caminho dentro da noite escura como quem reza e do outro lado da cidade pupilas dilatadas a menina dança e o velho senhor dorme seu último sono como se nada jamais houvesse acontecido e segue a babar aos lençóis amarelos galochas amarelas dentro da noite escura dentro da noite escura dentro da noite mais de mil mentiras e uma memória perdida à luz de uma química transloucada o ar vibra e as invisíveis nuvens se sacodem de um susto mas a noite não tem pressa a noite sem lua é este sem fim de sacolejos surdos onde a cabeça queima e jamais tombará ~


Ebersbach

24Dez08

ebersbach.jpg


Quadros tortos, quadros tortos.


traveler.jpg


Jazzy chaos.

22Out08

So you cross the streets and follow your course through the highest buildings of the city that burns and burns, but all you see is just this pack of boys and girls stuck in the corners of alleys, and they feel so good, so well indeed, like giants from the hot movies where everything happens and everything’s just fair and fine even when all is awkward, dark and sad. But do not despair, do not crack or shrink. Keep walking, Johnnie, keep walking because you don’t like movies anymore and you know it, so be clever and be sure you will not put these things down on a cheap paper. And you’ll be all right, you’ll be all right and everything will be calm and far away at last.


#63

12Out08

So I’m that man, awfully wearied, fibbing poems to no one. And I’m sitting there, then I’m standing there, wagging by the window, versing fizzles against logic, and evening comes ravening like woosh!, so I’m just this little feebly puffy boy in the toils of earnestness. Drowning night again, full of tumult and violence in its sky, and I’m standing before it, and then the light of men, scattered lights that sprang up at nightfall like starving lice gushing in the void. And that’s all, no poem can hold it for no pain can exceed it. All out.


Balthus.

05Out08


Ad nauseam.

26Set08

Someone dies in the end, we know that, don’t we? Someone dies in the end and it will be a good and graceful death. All these paths, mournful paths, these little oozing paths, all these gloomy addendas, these yummish lies that sparkles, all to its end forever at last. Someone dies and then the silence. The prime silence of darkness. No lack of void. All these moons, these pale moons, these frolicked suns – not a word about that. Peer no more, seek no more, doubt no more. Done with that, done with all. Everything flows, yields. All these words cancels out. Someone dies in the end, I know that. And then the final gaze, the last of latters. Delivered. A good death qua death. And then the rest.


Watt coroado.

24Set08

Continuando a inspecção, como alguém desprovido de senso, observei, tão distintamente que não havia margem para dúvidas, no jardim adjacente, quem senão Watt, a avançar de costas na minha direcção. A sua progressão era lenta e erradia, devido certamente a ele não ter olhos nas costas, e dolorosa também, acho, pois muitas vezes ia de encontro aos troncos das árvores, ou enredavam-se-lhe os pés no emaranhado de plantas rasteiras, e caía, dando com todas as costas no chão, ou num maciço de espinheiros, ou de roseiras bravas, ou de ortigas, ou de cardos. Mas, sempre sem um murmúrio, continuava, até que ficou encostado à cerca, com os braços esticados, agarrado aos arames. Então, deu meia volta, na intenção muito provável de regressar da forma como viera, e vi a face dele, e o resto da sua parte dianteira. Tinha a cara a sangrar, as mãos também, e espinhos espetados no couro cabeludo. (Nesse momento, a sua parecença com o Cristo imaginado por Bosch, na altura em Trafalgar Square, era tão flagrante que reparei nela.) E, no mesmo instante, abruptamente, tive a sensação de que estava diante de um grande espelho, no qual se reflectia o meu jardim, e a minha cerca, e eu, e até os próprios pássaros agitando-se ao vento, de forma que me pus a olhar para as mãos, e a tocar a face, e o crânio brilhante, com uma ansiedade tão real quanto infundada. (Pois se, nessa época, havia alguém de quem se podia dizer com verdade que não se assemelhava ao Cristo suposto por Bosch, na altura em Trafalgar Square, gabo-me de ser essa pessoa.)

Um trecho de Watt (1953), por Samuel Beckett.
Editora Assírio & Alvim, tradução de Manuel Resende.


Agora este pequeno meninote a correr contente sou eu, sou esta mão nervosa, o calor na fronte da rapariga, sou a ventania a percorrer a estrada do Mundo da Tempestade. E o menino a correr contente, este feliz menino de pés empoeirados ao chão de terra batida, a acenar para os peixes no lago, a sorrir galopante um sorriso de festa, sou eu este menino e sua comédia, sou a vergonha dos chinelos velhos à janela, sou o frio da noite sem estrelas a invadir as casas, este menino a correr sou eu!, e corre, corre, o ar aos cabelos encaracolados, sou eu! A vida a explodir no peito, eu!, sou esta vida a explodir no peito do menino que corre, que corre, que corre. Sou esta cortina de pó a pairar à luz do meio-dia e corro, corro, sou esta alegria que corre e corro a não poder mais. Sou esta luz atravessada a correr, sou esta manhã dos pardais, este menininho sou eu!, sou eu o que corre e corre e corre a sorrir a sorrir a sorrir para sempre ao lago dos peixes, aos pardais amanhecendo, às explosões das borboletas escondidas, eu!, sou este meninote à vida!, sou esta farra transloucada em câmera-lenta, eu!, a correr e correr sorrindo a brincar ao voltear do vento a assoprar as folhas à beira da estrada do Tempo!


Vejo dois insetos presos à vidraça. Algo de estranho segue seu curso, silêncio extraordinário. Guardo comigo um pequeno recorte, um pedaço de pão velho e a metade de uma gravata. Minhas posses junto ao peito, olhos pasmados à janela. Do estômago em cambalhotas, nenhum som, som nenhum. Solus, pauper, nudus, algo de estranho segue seu curso.


Quadrante.

22Ago08

______Encontrei-me com Paulo na esquina da Rua do Cemitério, trazia comigo uma pequena valise cheia de papéis. O que há com você?, perguntou-me assim que afrouxei o passo. Que tipo de pergunta é essa? Eu não sei, parece que não dorme há dias. Sim, é verdade, de fato não durmo há um bom tempo, venha, preciso te mostrar uma coisa, é importante. Chegando em meu apartamento pedi para que se sentasse ao sofá, logo eu traria algo para bebermos, Sente-se aí, logo trago algo para bebermos, foi o que eu disse, Espere um pouco, está bem? Fui ao banheiro lavar o rosto e as mãos, suava bastante, a camisa ensopada por debaixo do casaco. Voltei à sala e com os olhos bem abertos disparei a falar. Paulo ouviu tudo, não se movia, vez ou outra podia perceber que lágrimas escorriam-lhe pelas bochechas absurdas. Abri a valise, examinei algumas folhas rabiscadas com signos estranhos, murmurei algo. Paulo atônito a fitar-me em suspenso, os lábios pouco separados em um desenho idiota. Você entende? Você entende? De um só sobressalto, começo a gritar como um louco, Paulo! Oh, Paulo! Paulo, você entende? Não? Você não entende? Pelo diabo, Paulo, me diga, vamos, você compreende? Oh! Sim! Sim! Terrível! Terrível! Ficamos por ali, em meio à mobília, no escuro. Certo dia Paulo cutucou-me o ombro, disse-me algo ao pé do ouvido. Virando à esquerda encontrará um poste. Virando à esquerda encontrará um poste, mais nada. Viro à esquerda, encontro-me com Paulo na esquina da Rua do Cemitério, trago comigo um pequeno vidrinho entupido de veneno. Paulo chora, beijo-lhe a testa. Viro à esquerda, viro à esquerda, sigo a virar à esquerda, à esquerda, virando às esquerdas, às esquerdas, viro, viro, meus pés, minhas mãos, minha boca, minha língua, sigo a virar às esquerdas, virando, virando, encontro-me com Paulo na esquina da Rua do Cemitério. Contorno a cama obsessivamente.


Pausa.

22Ago08


Palhaço.

21Ago08

______Não me importa a filosofia, o pulso. Se travo diálogos com o escuro, se sonho desertos, e então? Se penso na morte ou na moça, se não sei dançar, se sou feio, se falo de menos – o que há para ser dito? Se não me interessa a política, as canções contentes ou os piqueniques endomingados, não, nada disso me importa. Se ao pensar constato que talvez fosse melhor aprender piano, praticar um esporte, traçar planos, gostar de matemática, me valer cegamente do acaso, não, absolutamente, de agora em diante só restará este meu pequeno céu patafísico. Basta. Pensar? Não, mais nenhum pensamento. Por quieto, inocente que seja, mais nenhum pensamento. Não, pensar jamais. Fumarei cigarros à janela, comprarei tomates. Mas quem? Quem à janela? Quem aos tomates? Ao diabo, como mentir? A quem a poesia? Perdido, penso. Sigo a pensar. Envergonhado, às escondidas; o palhaço. Trago comigo o alívio do trágico, a agonia do cômico e o silêncio do impossível. E o estômago indisposto por natureza.


Tradução.

20Ago08

Ma Bohème (Fantaisie), de Arthur Rimbaud. Outubro de 1870.

Trad.: Minha Boêmia (Fantasia)

Lá ia eu, os punhos nos bolsos furados;
Meu paletó também se tornara o ideal;
Ia sob o céu, Musa! Teu súdito leal;
Oh! Lá, lá! Quantos lindos amores sonhados!

Minhas únicas calças tinham um largo remendo.
- Pequeno Polegar sonhador, ao correr tecia
Rimas. E a guiar-me, a Ursa Maior seguia.
- Minhas estrelas lá em cima, sutis, tremendo.

A escutá-las, eu, à beira das rotas,
Nestas doces noites de setembro, a sentir gotas
De orvalho em minha testa, vinho perfeito;

Quando, rimando em meio aos vultos fantásticos,
Tal como liras, puxava os elásticos
De meus sapatos gastos, um pé junto ao peito!

Orig.: Ma Bohème (Fantaisie)

Je m’en allais, les poings dans mes poches crevées;
Mon paletot soudain devenait idéal;
J’allais sous le ciel, Muse, et j’étais ton féal;
Oh! là là! que d’amours splendides j’ai rêvées!

Mon unique culotte avait un large trou.
- Petit-Poucet rêveur, j’égrenais dans ma course
Des rimes. Mon auberge était à la Grande-Ourse.
- Mes étoiles au ciel avaient un doux frou-frou.

Et je les écoutais, assis au bord des routes,
Ces bons soirs de septembre où je sentais des gouttes
De rosée à mon front, comme un vin de vigueur;

Où, rimant au milieu des ombres fantastiques,
Comme des lyres, je tirais les élastiques
De mes souliers blessés, un pied près de mon coeur!


Febre.

20Ago08

______Procuro um instante livre de torturas por entre as cenas que crio. O estômago não se aquieta, minhas dores disputam minha atenção em espécie de jogo estranho: cadências sombrias, ritmos abissais, arpeggios alucinados. O entardecer invade o cômodo e volteia sem pressa a muda mobília da sala. Em algum ponto do mundo, a morrer, como eu um velho homem cala. Procuro um instante livre de mortalhas, passeio intrépido por minhas mentiras. Mora em mim uma matilha feroz, esfaimada por mundos impossíveis, morangos. O idiota não parte de si, jamais se abandona. Sou um idiota simples, minha causa é a do absurdo ordinário, durmo pouco, sou educado; procuro um instante de calma em meio à violência do inevitável. Pro Inferno. Fito atônito o absurdo estético refletido em uma colher atravessada por sobre a xícara de café, acendo um cigarro. Fantasio um delírio onde mato um homem com a ponta de um guarda-chuva. A chuva despenca violentamente ao mundo.


W. – Sobre o que quer conversar?

K. – Estava pensando em sexo.

W. – Em sexo?

K. – Sim.

W. – Você quer conversar sobre sexo?

K. – Não, eu não disse isso.

W. – Ah, sim.

K. – Você já foi lá fora?

W. – Lá fora? Fora daqui?

K. – Sim, lá fora, já saiu daqui alguma vez?

W. – É claro que não, você sabe que não.

K. – Deve ser bonito.

W. – É perigoso.

K. – Não deve ser tão perigoso assim.

W. – Dizem que existem coisas estranhas por toda parte.

K. – Coisas estranhas?

W. – Eu não sei, dizem que são como monstros.

K. – Monstros…

W. – Sim, monstros.

K. – Quem diz isso?

W. – Quem diz o quê?

K. – Isso de monstros, coisas estranhas…

W. – Não entendo.

K. – Você disse que dizem ser perigoso lá fora.

W. – Estou confuso.

K. – Se aquiete, não precisa responder.

W. – Estou confuso.

K. – Calma, calma, segure um dos meus pés.

W. – Você é muito gentil.

K. – E então? Se sente melhor?

W. – Muito melhor, muito melhor.

K. – Deveríamos ir lá fora qualquer dia desses.

W. – Dizem ser perigoso, muito perigoso…

K. – Você gosta daqui?

W. – Muito, muito perigoso…

K. – Você gosta daqui?

W. – Não reclamo.

K. – Lá fora deve ser bonito.

W. – Pode ser que seja.

K. – E então? O que me diz?

W. – Sobre o quê?

K. – Estou confuso.

W. – Venha, agarre minha língua.

K. – Sua língua?

W. – Minha língua, vamos.

Pausa.

K. – Sobre o que quer conversar?

Silêncio e

fim.


Beckett.

14Ago08

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“Ah, if only this voice could stop, this meaningless voice which prevents you from being nothing, just barely prevents you from being nothing and nowhere, just enough to keep alight this little yellow flame feebly darting from side to side, panting, as if straining to tear itself from its wick, it should never have been lit, or it should never have been fed, or it should have been put out, put out, it should have been let go out.”

Samuel Beckett em The Unnamable (1957).
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Giacometti.

07Ago08


Rabisco um verso ao canto da página e sigo a repeti-lo ladeira abaixo. Crio o poema perfeito: reto, sombrio, completamente meu. Sigo a riscar o mesmo poema às outras folhas, espanto-me com meu atrevimento, devo ser poeta. Adiante, marcando páginas e páginas, agarro o lápis com força, o espírito alucinado. Lá vou eu a preencher as paredes, os armários, minhas roupas, louças e o chão da sala. A chuva fustiga as janelas com a violência das chuvas que fustigam as janelas com a violência das chuvas tão quase chuvas a mim. Coisas sempre tão quase coisas a mim, todas elas. Metralhadora enlouquecida, esgoto o grafite, arranho as portas, os postes, as casas, os restaurantes, bordéis, barracas, homens de gravata, mulheres de vestido, crianças coloridas, torres, edifícios, montanhas, florestas inteiras, a noite escura; e o medo da noite escura. E a chuva sobre os campados, o fogo dos amores de domingo, os bancos de praça, a fúria dos oceanos revoltosos e as cores da manhã que explode. E tombo, exausto em mim. Acordo ao som de um pássaro cretino. O rosto pregado aos papéis, os papéis vazios de palavras; o mundo em branco, ordinário, morto-vivo pulsante tal como o habitual, sem manchas. Me levanto em desalinho, o céu através da vidraça é azul, terrivelmente azul. Bocejo. O pássaro não pára de piar, vou matá-lo.


Avesso.

31Jul08

Ouço-os sorrindo ao meu lado. E o som dos carros a invadir-me as orelhas. Estou doente, mil miúdas contingências ao redor do crânio. Eles brilham sob a luz pardacenta dos postes que trilham o canteiro, fumam maconha, dividem os gargalos das garrafas, estão vivos; é meia-noite. Os imagino em suas vidas absurdas, doces e mecânicos, subindo escadas, prestando contas, comendo sanduíches. E viagens, barulhos, fodas no sofá, tragédias embriagadas. O frio aumenta com o cair da noite. As vozes cada vez mais agudas, o ritmo cada vez mais insano. Tons malditos, texturas malucas, crimes sujos nas calçadas. Fantasio uma explosão, rio como um possesso. Meu rosto frio e apático reflete o vermelho de um extravagante sapato.


Delirium.

31Jul08

It rains on the windowsill. And through the roof, bluish drops. An yawn – awkward sea-folded reminiscence: an yacht pleats the bay under the splintered sun due to the approaching storm; an apple down my pocket, and on my head a happy sailor hat that sways by the shifting ebbs of the tides. Violet air, I bring tobacoo and some cognac, my eyes sparkles. An ill-omened bird draws ellipses around the freaking sail. On the high sea, I see it, pompous ship, slowly sinking – a shipwreck that sets my chest out of pace, I quinch my eyes. I’m gonna burst. A faint in a void of bliss.


História.

31Jul08


——————–Trepava-me à cabeça a idéia de morte. Não era eu a colher as flores, não era eu a sofrer amores, naquele tempo. E na mais fria das noites, em cavaleio me veio o feroz quociente da angústia: vivo, quente, a transportar-me ao abismo do meu crânio, ao desalinho amargo da solidão irremediável. Não pude mais dormir, desde então. Em face à embriaguez permanente, instalou-se em meu rosto um sorriso – este também de morte – e já não podia pensar janelas, escrever impressões; estava doente do verso. Não havia mais em mim o crápula de antes, a precipitação passional às memórias, a precisão rítmica com que pensava suicídios, idealizava carícias, versava sobre o impossível. Me tornei uma vítima do descontentamento, um homem silencioso e sorridente. Um bêbado insone. Imóvel. Fechei as cortinas, apaguei as luzes; eu me livrei do grafite.

——————–Mas um dia uma flor me bateu à porta. E com ela o sentimento estival que assola aqueles a quem as flores batem às portas. Os armários vazios de garrafas, escrevi um poema. E foi neste dia que enfiei uma bala na cabeça.


Diagrama.

11Jul08

Assombroso ruído de folhas, o coração escalado aos ouvidos. De um só assalto, a vertigem. Assomados, passeiam entre os vãos, carregam bagagens, folhetos, beijos em câmera lenta. Compram passagens, desfilam barulhentos pelos instantes, contentes; sa-gra-dos. É o clarão da vida, a estação do infinito. Prossigo ao fundo violentamente. Sou o silêncio, o desencontro. E dói. O tempo de um caracol que volteia mundos.


Pausa.

26Jun08

pimpant.com


Locus comunis.

21Jun08

É a primeira vez que venho aqui. A rua é suja. Putas, párias, gays, lúmpens, marginais e nojentos de todas as espécies. Me esquivo com certa destreza dos que teimam em cruzar meu caminho. Todos riem quando enfio um dos sapatos na imundice transbordante da calçada, finjo não me importar, chacoalho o sapato de uma forma engraçada, eles gargalham. Cruzo uma ponte que me leva até a porta de um estabelecimento barulhento e após dois ou três minutos estou sentado em um banquinho de madeira, peço algo para beber, não sei o que é. Sinto bastante frio, tento acender um cigarro molhado, minhas mãos tremem. Devo estar doente. Alguém esbarra às minhas costas, peço desculpas, peço outra bebida, consigo acender o cigarro, minhas mãos não param de tremer. Devo estar morrendo. Olho atentamente ao redor, sinto dores na parte detrás da cabeça, alguém derrama um pouco de cerveja no meu ombro esquerdo. Percebo uma moça babando, deitada no chão, parece uma santa. Algumas pessoas dançam, não ouço a música. Um rapaz resolve quebrar uma garrafa. Talvez seja mesmo a hora de ir embora. É a primeira vez que venho aqui, preciso ir ao banheiro. Há algo de bonito em meu coração. O ritmo é quase burlesco, não me arrisco. Luzes, vidas estranhas, preciso ir embora daqui. Não posso me mover. Choro compulsivamente. Esfrego os olhos e o nariz contra a manga do casaco, não tenho um lenço.


Fizzle.

19Mai08

This tiny little light
I don’t know where it comes from
And when it comes
It never lasts


Aporia.

16Mai08

Essas coisas. Todas essas coisas a se reunirem ao meu redor. A se repetirem. Eu as vejo, as movo, as somo, as calo. Eu as incendeio. Depois eu as como, as choro. Não exatamente. Essas coisas todas em minha cabeça a se embaralharem, eu as durmo. E corro, corro. Não me alcanço. E é como se o instante fosse o mesmo instante, como se em meu sopro um outro sopro, nenhum. Não, eu não me alcanço. E corro, corro. Quiasmos falsos, falsos recomeços, eu não me alcanço. Eu – não dizer mais eu, tomar nota -, entrevado. Eu não me encontro, eu não me acompanho. Não me rio. E eu os vejo, mórbidos, contentes, eu os vejo, eles não me vêem. Ou antes me vêem, sim, me gargalham, me sorriem. E eu corro, corro, não me alcanço e corro. Eu não me sigo. Não, eu não direi mais nada. Não dizer mais eu, mim. E ninguém dirá, à luz do que não fui, que teria sido melhor de outra forma. Essas coisas todas ao meu redor a se reunirem, eu as vejo, as sinto. Não dizer mais eu. Essas coisas, nenhum lugar. Ninguém mais. Não exatamente, não exatamente.


Álcool.

29Abr08

(fim)Em meio à didascália, um bocejo. À janela, uma puta a rimar. Penso em Beatriz a fazer cálculos, a pisar passeios. Mais impossível das imagens, distante, viva, insensível aos meus abismos. Há hoje em mim essa gravidade lunar, silenciosa.
(fim)Ou talvez hoje a noite não seja assim tão fria e não haja mesmo em meu peito qualquer hino à nobreza do que é trágico. Foco o instante. Inclino-me em recuo, à sombra de meu lápis. Sorrio. Sou grato às putas, ao digno malte escocês e a Prevért. Estou mesmo muito contente. Talvez me mude para o mais quente dos países. Então caso-me com a mais contente das gordas, a mais gorda das contentes. Comprarei um cão e um bandolim. Ora, queiram me perdoar, senhores, hoje falta-me o spleen.


Não há em mim vestígios de uma tragicidade mergulhada, de uma história de morte matada¹. Há em mim, impassível, como nos homens de lata, vazios, a fúria da seriedade. Há em meu crânio as ruínas de todas as palavras que aprendi, de todos os cálculos que fui obrigado a fazer, rezas de domingo, segredos de banco de praça. Não faço o gênero poeta esfarrapado. Figuro a galeria dos cômicos, dos homens graves e desajeitados. Dos que trazem olhos de vidro. Dos que não choram. Dos que não trazem uma flor na lapela, mas sim uma mentira escondida nas costas. E um silêncio impossível nas mãos.

¹ Obrigado, João Cabral.


- – -

02Abr08

(…) pois em mim essa morte não configurava qualquer sentimento de aniquilação. Antes, se bem posso me lembrar, apresentava-se como um desmaio em quatrocentos quadros. E foi como se dentro de mim a imagem sorrisse obliterada, chuvosa, como despedindo-se de si mesma. Por todo o tempo do mundo.


Café.

15Mar08

Um corpo cinzento na vasta estepe. Imagine. Sigo em frente, avanço. Câmera lenta galopante. Lá, cá outra vez. A mais deserta das moças. E seus sapatos, suas meias. Imagem fria, distante, tão a morrer. Cá outra vez, a tecer comentários, a empilhar velhas sombras, nenhuma, cem mil sombras difusas a me dizerem. É a velha tralha, são os maus costumes meus. Minhas histórias. Avanço, perfilo-me. Lá outra vez, a esperança, a palavra, a imagem a nascer morta, as flores de ninguém. Chovo. E com a chuva, o ranger de dentes, os suspiros enfermos, as desacelerações do espírito. E praias sem fim, aéreas, descoloridas, descontentes. Lá, cá outra vez. Toda a vida, todo o riso, todo o drama. Avanço fragmentado, escondo-me. Um corpo cinzento na vasta estepe. Imagine.


Pausa.

11Mar08

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Anuviaste-me.

11Mar08

E vejo a imagem estendida sobre as telhas das casas caiadas. E não credito a sensação que me toma ao descompasso dessa minha alma pouca, anoitecida de tagarelices. Talvez toda a questão seja bem simples, talvez seja do coração a culpa por essa incapacidade de seguir em frente, como dizem. Essa incapacidade que é assim como uma piada suja contada por gente contente. E ergo meu mundo em direção ao céu dos homens, ao primeiro dos céus, frio de estrelas. Fixo o zênite.


Essa legião de moribundos passando, por todos os lados, indo e vindo, reprimindo gestos, fazendo caretas, assim, por todos os lados passando. Multidão de empoeirados. E é como se não houvesse luz no peito dessa gente. E que por detrás das coisas fosse a noite escura e o medo da noite toda escura, o medo acumulado de todas as noites desde a primeira noite do mundo. E imobilizado através de vastos tratos de tempo, permaneço açoitado pela imagem da gente títere, eu, à minha janela, vendo o mundo correr, entregando-me quase que por completo à ascese, não fossem as palavras que teimo em dizer, não fossem as associações que ouso articular. Para nada.


Equação.

10Mar08

É com gravidade que me recordo das histórias que não contei, dos sonhos que jamais tive. Vi um pouco de céu, de mar. Vi um pouco dos homens e de seus instrumentos. Pouca coisa bastando-se em si. Vi os filhos dos homens, suas poesias, suas vontades. Pouco daquilo que um só homem poderia ter afundado em seu coração, acredito eu. No entanto, é vasta a vida que habita minha memória. E fraca a alma que abriga minhas imensidões. Sinto estar morto. Não como no dia de minha morte primeira, primeira das mortes, primaveril. Ressureição. Tenho a incrível impressão de que desapareci. Não me verão mais na superfície. De que são feitos os sonhos? Não me farei mais perguntas. Grão por grão, até que a mão, cansada, repouse. E na noite, mais infinita das noites, febril de murmúrios, me abandonarei à vala comum. Sem deixar vestígios.


Não fui um homem de flores. Jamais encontrei conforto nas lilases. Jamais amei uma rosa, tampouco vi nas estrelas qualquer espécie de refúgio. Não fui um admirador dos céus, nunca adivinhei nuvens. Não fui um homem das coisas. Nunca fui universal. Jamais disse amém. Não, não é a verdade. Eu me lembro de um amém. Até mesmo de três ou quatro rezas, mas nunca me confessei. Fui um bom homem. Até onde posso me lembrar com clareza. Grande parte de minhas recordações, a maior parte delas, quero dizer, são fracas, quase mortas, assim, como fotografias das férias dos outros. Um belo dia procurei um doutor desses que cuidam das coisas da cabeça e o indaguei sobre a questão da memória. Disso eu me lembro. Mas também pode ser que eu esteja simplesmente mentindo. Ele me respondeu algo muito bonito e me deu um vidrinho amarelo. Ainda o tenho comigo. É mesmo possível que eu acabe o encontrando qualquer dia desses, enquanto estiver revirando os bolsos do meu casaco. O casaco. Não sei onde está. Talvez esteja lá, onde o deixei pendurado, naquele dia, naquele dia em que menti sobre mim, naquele dia em que menti sobre mim para poder viver melhor, sentir melhor, morrer em paz. Lá vou eu me perdendo novamente. É mesmo incrível esse meu fetiche por fiascos. Serei eu incapaz de inventar uma existência menos tortuosa? Poderei um dia me despedir dessa ilha de Dédalo onde Astérios não dorme jamais? Como é pouco o espírito, como é terrível a luta. Estou brincando. Talvez seja melhor passar para a outra história. Aquela em que fui um homem das flores, um mágico cheio de estrelas. Um homem mais universal, talvez. Nela serei o mais nobre dos cavalheiros, darei um girassol à Europa e farei poesia fácil e desesperada. Lá vou eu me perdendo novamente.


E olhar para Beatriz é como olhar para o mar numa noite toda escura, sem estrelas. Aquela calma atormentada onde não há senão o silêncio lancinante do barulho das ondas em refluxo. E o instante dura assim como um enforcamento, como uma história contada pela septuagésima vez, uma fábula distante. E é como morrer. E quando a gente morre, quando a gente morre é como um bocejo suspenso no fim do mundo. É como o silêncio das casas vazias.

E depois é o céu, e depois. E depois.

É o céu, velho céu que se eleva e despeja sobre nós essa espécie de luz faiscante, eriçada, atravessada de contracorrentes. É o céu que encerra o mar, suas ondas e sua ausência. E a torrente de pensamentos em ressaca. E a morte por detrás das coisas. E penso que talvez os homens sejam grandes demais, gigantes por sobre o espaço. Talvez eu seja uma luz, talvez eu seja feito das mentiras que conto. Talvez eu seja os comprimidos que não tomo. Talvez, sim, talvez um mundo de coisas.


Ad infinitum.

13Fev08

Esperou por uma notícia, qualquer notícia, vinda de qualquer um, de qualquer parte, uma notícia, uma nota acerca da situação, acerca do estado da vida e da doença e da morte daquela moça, tão doce moça em seu quarto todo branco, as flores no criado-mudo, aquela imagem, imagem como via, como selava, como protegia, a imagem das flores, da cama da moça e da janela e das manhãs. E esperou por uma notícia, por uma nota, qualquer nota que não veio e foi assim, ficando agitado, perturbado por toda sorte de pensamentos e pela imagem fria, muda, quieta, dura, estática das flores no criado-mudo. As flores no criado-mudo.